Livros Adultos e Infanto-juvenis

Ficção Científica, Ficção Fantástica, Terror, Suspense, Policial

 

 

 

Roteiro Globo - 1997 - "Filho pródigo"

“Filho pródigo”

 

1          Int. / Restaurante / Noite.                                                                                                          1

 

A CÂMARA mostra uma mesa vazia. O GARÇOM a indica para o casal que acaba de entrar. O restaurante está com sua iluminação em meia-luz/intimista. Parece ser muito caro e bem freqüentado. Mesas com tolhas de veludo mostram requinte. O casal sorri, um para o outro. Parecem apaixonados, cúmplices de uma amor proibido. Olham para os lados o tempo todo; estão tensos. Não vêem nenhum rosto conhecido. Sorriem um para o outro de novo. Parecem sossegar. O garçom prepara a caneta. O rapaz de pele bronzeada é bonito e está bem vestido; abre o menu enquanto uma musica suave toca ao fundo. Parece JAZZ, parece SWING. A moça está enamorada. ENQUADRAMOS seu sorriso. Parece suspirar de paixão. O olha com carinho. Num ÂNGULO INVERTIDO ele percebe estar sendo observado e lhe sorri em retribuição. Ele é ANTONIO, “melhor” amigo de GILBERTO namorado da moça à sua frente. Ela é SUZANA, namorada de Gilberto. Suzana é tipo mignon e tem sorriso simpático. Antonio faz o pedido ao garçom.

 

Um vinho branco, bem gelado. Alemão, de preferência. __ Iscas..........e lula empanada.

 

 

ANTONIO

 

 

 

O garçom anota. A CÂMARA gira 360º, acompanha o olhar da moça. O Salão, as PESSOAS, o MUSICO (na ordem). Uma outra CÂMARA mostra Gilberto na porta. Antonio tira os olhos do menu, passa pelo garçom, chega em Suzana. vai jogar-lhe um beijo. Estanca! Seus olhos, vidrados, num PLANO PRÓXIMO até a dilatação das pupilas onde forma a imagem, que se projeta atrás do belo vidro jateado que separa a entrada do restaurante de onde as mesas ficam localizadas. Os labios de Antonio pesam, tenta soletrar algo. Suzana num PLANO SEGUIDO, o vê naquela situação, olha o garçom que escreve, olha o salão, o Musico e sua musica e tenta achar, nesta seqüência, o que ele está vendo. Não consegue localizar e faz um gesto como quem vai perguntar o que está acontecendo.

 

ANTONIO

(grito abafado)

 
 

Não!

 

 

 

 

Uma sombra se projeta em direção ao lado de fora do restaurante no mesmo momento que Antonio se levanta e deixa cair a sua própria cadeira no chão. A sombra sai correndo para fora do restaurante.

 

CORTA PARA

 

2          Ext. / Rua(em frente ao Restaurante) / Noite.                                                                           2

 

A sombra sai do restaurante e mais ninguém consegue faze-lo. Os vidros, jateados, explodem numa velocidade constante e se projetam para fora até atingir a rua. O restaurante vai para os ares com o casal de amantes, o garçom, as pessoas, os músicos a musica. Os vidros dos postes , na rua explodem e quatro carros na frente do restaurante também. Na seqüência, quando a sombra corre, em meio à explosão, cinco RAPAZES se jogam ao chão. Estavam escondidos atrás de carros estacionados outro lado da rua. O olhar de um deles em especial, tem o foco fechado nele tal qual com Gilberto. O rapaz é FELIPE, menino rico e mimado, de corpo semi atlético e cabelos loiros, está acostumado a “zoar com a turma”. Apavorado com a cena fica estático, inerte à sua volta, onde gritos e risos de euforia e alegria dos demais rapazes ao seu lado, são feitos. Derrepente mais duas explosões seguidas pelo excesso de gás nos botijões do restaurante. Todos ao chão pelo levante de ar comprimido. Cadeiras voam para fora da janela, agora inexistente. Destruição total. Felipe, atônito, dá a impressão de que não sabia que aquilo aconteceria.

FELIPE

(gaguejando)

 
 

O que ... foi ...? O que?

 

 

 

 

 

 

Agarra um dos AMIGOS ali ao lado. O rapaz se desvencilha de suas mãos. Felipe apavorado olha para o outro amigo que acaba de chegar. O amigo está ofegante. Ele é Gilberto, rapaz corpulento e muito alto, de cabelos negros envolvidos em gel, chefe da turma que mantém os cabelos iguais aos dele. A CÂMARA mostra, pelos abraços e congratulações dos outros integrantes, confirmando ser ele o líder. Felipe parece não saber o que fariam ali. Nada sabia sobre o trágico futuro do casal de amantes dentro do restaurante.

 

FELIPE

(voz alterada)

 
 

Disse que ia apenas flagrá-los, não disse?

Era só um susto, não era?

 

 

 

 

 

 

 

Gilberto, com ódio nos olhos, não reponde, mostrando desprezo. Se vira para a turma e ameaça correr dali. Os outros integrantes, quatro ao todo, não são apresentados ao publico; são figurantes.

 

GILBERTO

(grita)

 
 

Vamos! Vamos comemorar!

 

 

 

 

 

 

Os outros vão embora com o líder. A camera foca o desespero de Felipe em meio a um fogaréu mostrado por detrás dele, e que termina a cena segurando a cabeça e se expressando numa só palavra.

 

Deus!

 

FELIPE

 

 

CORTA PARA

 

3          Int. / Quarto de Felipe / Dia.                                                                                                      3

 

O quarto está revirado. As mesmas roupas que vestia na hora da explosão reinam  na bagunça. Felipe parece absorto. O café está colocado na mesa(não aparece) e ele já foi chamado pelos criados três vezes, porém sem responder. Uma pancada mais forte, na porta, o faz acordar.

 

FELIPE

(grita)

 
 

O que é?

 

 

 

 

 

 

Do lado de fora aparece um homem aparentando 40 anos. É LUÍS ALFREDO Fº que vamos a vir saber que é seu irmão, unico e mais velho. Felipe tem 18. Há um abismo entre eles. Felipe vai até a porta e a abre sem porém olhar para confirmar quem era. Volta a se deitar na bagunça. Depois observa Luís Alfredo fº.

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

 
 

Os jornais estão noticiando desde as primeiras horas. A namorada do seu amigo foi morta numa explosão criminosa.

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

 
 

Não eram mais namorados. Gilberto que não entendeu...

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

(instiga-o)

 
 

Você estava lá, não estava?

 

 

 

 

 

 

A CÂMARA acompanha o olhar de Luís Alfredo fº . O quarto revirado, as roupas sujas. O quarto de Felipe, porém, é belo e ricamente decorado. A casa é farta de tapetes persas e obras de arte mas sem perder o jeito de casa de fazenda. Felipe vai responder em tom debochado.

 

FELIPE

 
 

O meu irmãozinho está preocupado comigo?

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

 
 

Claro que estava!

 

 

 

 

 

FELIPE

(grita visualmente descontrolado)

 
 

Cala a boca! Vocês nunca me amaram!

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

(engole a seco)

 
 

De onde tira essa idéias patafurdias? De seus amigos delinqüentes e drogados?

 

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

 
 

Não seu meus amigos. Jogamos beisebol, apenas.

 

 

 

 

 

 

 

Luís Alfredo fº faz menções com as mãos para mostrar o absurdo do momento vivido.

 

LUÍS ALFREDO Fº

São um bando de filhinhos de papai que saem a noite dirigindo sem ter carteira, atropelando tudo e todos e se drogando para “viajar”.

 

 

 

(irritado)

 

 

 

FELIPE

 
 

Nossa! O que há? Deixou de ser covarde é? Aprendeu a se manifestar? Vai... sai correndo e conta para o velho, vai. Ele vai me defender como sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

 
 

Não é nada disso. Ficamos preocupados...

 

 

 

 

 

 

 

Será interrompido pela fala de Felipe que se altera terrivelmente. Percebesse pelo suor do rosto de Luís Alfredo fº que é um banana. Descontrola-se ao simples falar do nome do pai. Sente temor do pai.

 

 

FELIPE

 
 

Preocupados? Vocês nunca ligaram para mim. Para o papai e só a riqueza e seus bois.

Escolheu a mim ao invés de minha mãe, não foi? Ele não sabe amar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

 
 

Papai fez uma escolha no parto. Era você ou mamãe ... , mas você, continua a desafiá-lo, como sempre. Papai te ama, não vê? Esse mimo todo... .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mimo? Será amor ou culpa? E você ? O que ama, irmãozinho? Ahhh! Claro! É a fazenda não é? E o que vão lucrar com ela... .

 

 

 

FELIPE

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

(descontrola-se)

 
 

Estou errado em pensar no nosso futuro?

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

 
 

Nosso? Ora veja! O grande capacho. Papai não podia ter contratado ninguém melhor...

 

 

 

 

 

 

 

Luís Alfredo fº nem espera o fim da resposta e ameaça avançar sobre Felipe quando é interrompido pela grande figura do pai. Num ÂNGULO INVERTIDO sai de cena os irmãos e ENQUADRA o velho gordo, de cabelos esbranquiçados e um ar cansado que acaba de entrar no quarto.

Ele é o VELHO LUÍS ALFREDO.

 

Felipe não liga a mínima para sua presença mas sabe que será defendido. Mostra sua satisfação para o irmão que mais respeitoso, se controla. Luís Alfredo fº, sai do quarto sem olhar o pai que faz uma cara de desaprovação. Não gosta de discussões. Vários PLANOS são feitos no quarto com a mesma velocidade que o velho para observá-lo(bem lentamente).

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

Você está bem? Ficamos preocupados quando soubemos que a moça morta na explosão do restaurante era namorada “daquele”....rapaz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

 
 

Estou ótimo, obrigado!

 

 

 

 

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

Você vai se levantar? O café estará na mesa até as onze, depois pedirei para MARIA retirar. E não temos escolha. É bom ir escolhendo uma roupa para o sábado. Sua prima OFÉLIA se casará e seu irmão será

padrinho ...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

Não vou estar aqui para o casamento de Ofélia. Quero a minha parte na Fazenda. Vou embora!

 

 

 

(nervoso)

 

 

 

 

 

Um ÂNGULO INVERTIDO sai de Felipe para o Velho Luís Alfredo, rapidamente. O impacto das palavras atingem o Velho Luís Alfredo que coloca a mão no peito mas o faz de costas para Felipe que não vê. O Velho Luís Alfredo fecha os olhos.

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

Você vai me deixar? Teu irmão.......

a fazenda...?

 

 

 

 

 

 

 

Vou mudar de cidade, de ares. Quero uma vida diferente!

 

 

 

 

FELIPE

 

 

 

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

Diferente? Não está satisfeito com tudo o que tem , meu filho? Com tudo que lhe dou? Meu Deus! Onde foi que eu errei?

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

Não vai me dar o que me pertence, papai?

 

 

 

(cínico)

 

 

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

É claro que vou! Nunca lhe neguei nada.

Casa, amor, carinho. Só pensei que........ir embora?

 

 

 

 

 

 

 

 

CORTA PARA

 

4          Int. / Corredor da casa / Dia.                                                                                                     4

 

A porta é aberta e fechada rapidamente pelo Velho Luís Alfredo, que sai do quarto . Ele parece não querer mais, discutir o assunto e sai sem acabar a frase. Se encosta na porta recém fechada. Leva a mão ao coração outra vez. Sente dor. Atravessa os corredores lotados de quadros (telas na maioria)de cavalos, algumas fotos também. Ele estanca para ver as fotos. Uma em especial chama a sua atenção  É a foto em que aparece, ele próprio, remoçado, abraçado ao filho mais velho, Luís Alfredo fº, aparentando ser mais jovem também e Felipe que se julga ser a criança da foto, usando um boné de marinheiro azul. Focar um tempo considerável as roupas e o cenário, que serão úteis adiante.

 

CORTA PARA

 

5          Ext. / Frente da casa de Fazenda / Dia.                                                                                     5

 

Há, parado em frente da casa, um carro de passeio de onde desce um homem, de aspecto sério e respeitável. É DR. EDUARDO, advogado da família e respeitado amigo. A Empregada Maria abre a porta e comunica seu nome. Supõe-se ser outro dia.

 

Bom dia, Dr. Eduardo. O Sr. Luís Alfredo o espera na Biblioteca.

 

 

MARIA

 

 

 

 

Bom dia, Maria. Como está ele? Me pareceu nervoso ao telefone quando me ligou ontem de tarde? É verdade que Felipe vai embora?

 

 

DR. EDUARDO

 

 

 

 

MARIA

(chorosa)

 
 

É sim, Dr. Eduardo. O Velho Luís Alfredo está muito triste. Triste, mesmo. Conhece o problema dele com Felipe, não conhece? Felipe está cada vez mais desajustado, pobre menino. Sempre a lembrar da morte da mãe. Coitado do Velho Luís Alfredo. Ah! Deus! Ele sofre tanto. Felipe não vê esse amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A porta da Biblioteca é aberta pela empregada Maria e o advogado entra. Não vemos nem ouvimos a conversa. Ela não será mostrada.

 

CORTA PARA

 

6          Ext. / Frente da casa de Fazenda / Tarde.                                                                                  6

 

Estão todos na frente da casa. Faz-se um PLANO PRÓXIMO de um por um. A empregada Maria, tres EMPREGADOS não apresentados, o Velho Luís Alfredo. O irmão Luís Alfredo fº não aparece. O advogado Dr. Eduardo, que trás na mão alguns papeis dentro de um envelope e uma mala, tipo 007, que supõe-se estar cheia de dinheiro. Felipe aparece na frente da casa, já dentro de um jipe japonês. Sai e se dirige a empregada Maria que chora muito. Parece ter criado ele. Ele a abraça e parece ter carinho somente com ela. O pai se vira e não deixa ele se aproximar. Entra para dentro da casa, não aparecendo mais. O advogado se adianta e entrega a maleta e o envelope.

 

 

DR. EDUARDO

Eu só espero que você tenha juízo, menino. Tem muitas ações ao portador aí dentro. É como consegui levantar tão rápido, a fortuna que seu pai me pediu ontem.

 

 

(debochado)

 

 

 

 

 

Felipe puxa a mala da mão do advogado com certa força.

 

FELIPE

(irritado)

 
 

Não estou interessado em suas explicações. Adeus!

 

 

 

 

 

 

 

CORTA PARA

 

7          Int. / Biblioteca / Tarde.                                                                                                             7

 

A cena de Felipe indo embora e saindo pela porteira, já fora dos domínios da Fazenda, é vista pelo Velho Luís Alfredo, que fica arrasado e volta a por a mão no coração. A perda é sentida.

 

 

CORTA PARA

 

 

8          Int. / Quarto de Felipe / Tarde.                                                                                                  8

 

O irmão Luís Alfredo fº abaixa os olhos. Vê o quarto desarrumado e vazio. Ameaça chorar mas não o faz em frente à CÂMARA.

 

 

CORTA PARA

 

9          Ext. / Estrada / Noite.                                                                                                                            9

 

Felipe está fatigado. A noite chegou e ele ainda dirige. Resolve parar na beira da estrada. Olha ao redor e não vê um motel. Aumenta a marcha e sai. Atravessa a madrugada dirigindo. Vê luzes mais adiante, dá sinal para entrar à direita e para o carro em frente a uma espécie de boate. A CÂMARA filma a placa em néon vermelho onde se lê o nome da boate. “Inferninho” está escrito. Existem muitos carros na porta, muitas motos e muitos caminhões também. Pelo som que vem de lá dentro, o ambiente está cheio. ENQUADRAMOS muitas latas de cerveja jogadas logo à entrada da boate. O ambiente parece mal freqüentado, diferente do status de Felipe. Faz-se um ÂNGULO INVERTIDO entre Felipe e cada HOMEM MAL ENCARADO à entrada da boate. Num total de seis ou mais. Felipe coloca a mão na mochila que carrega presa às costas. Havia guardado o dinheiro e as ações lá dentro. Em OFF pensa que a maleta tipo 007 chamaria atenção se deixada no carro e fora dele.

 

 

CORTA PARA

 

10        Int. / Boate / Noite.                                                                                                                  10

 

Cria-se clima de terror aos olhos de Felipe que já não tem tanta certeza de querer estar ali. Felipe olha por duas vezes a porta por onde entrou. A CÂMARA simula sua vontade de sair.

INSERT (excesso de garrafas de bebida, de pontas de cigarro) em algumas mesas. Algumas prostitutas em seus modos característicos se espalham pelo grande e escurecido, salão. Uma prostituta em especial, LIZANDRA é seu nome, se chega nele, por trás. Está vestida de vermelho, numa roupa colante e brilhante. Tem cabelos loiros e desalinhados. Sorriso aberto.

 

LIZANDRA

 
 

Oi! Meu nome é Lizandra ! É sua primeira vinda ao “inferninho” ?

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

(suando)

 
 

Ohhh! Que susto! Não a vi chegar.

 

 

 

 

 

 

 

LIZANDRA

(debochada)

 
 

Não havia notado, ainda, uma mulher ........como eu?

 

 

 

 

 

 

FELIPE

(se encantando)

 
 

Não, não é isso. Só estava distraído. Meu nome é Felipe ........é divertido isso aqui?

 

 

 

 

 

 

LIZANDRA

(sorridente)

 
 

É muito mais que isso. Venha, Felipe! Vamos dançar um pouco. Vamos...

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

(indeciso)

 
 

Ahhh! Não sei.......se devo! Estou cansado e........Ok! Vamos!

 

 

 

 

 

 

Felipe olha para sua mão. Um PLANO PRÓXIMO mostra sua mão na mochila que carrega e de medo levou para dentro da boate. A CÂMARA mostra Lizandra que vê a cena e ergue a sobrancelha. Fica curiosa. Felipe dança até perder o contato com o chão. Quase cai. Sorri sem graça. Sente-se cansado. Num PLANO PRÓXIMO os olhos de Lizandra, que não perde de vista a mochila. Lizandra leva Felipe até o bar. Pede dois aperitivos. Um PLANO PRÓXIMO na mão do BARMAN colocando alguma coisa na bebida. Um PLANO PRÓXIMO no pó caindo no copo. Num PLANO INVERTIDO o Barman avisa Lizandra do copo com o pó, e ela concorda com a cabeça. Felipe está com sede. Lhe sorri agradecido e toma tudo num só gole. Se chacoalha todo.

 

FELIPE

(grita para ser ouvido)

 
 

Uau! Que forte! O que é isso que bebi?

 

 

 

 

 

 

LIZANDRA

(grita sorridente)

 
 

Especialidade da casa!

 

 

 

 

 

 

 

Felipe faz uma concordância com a cabeça e nada mais se falam. Ele também não larga a mochila ainda presa no pescoço. A musica é DANCING e moderna; toca alucinante. É “SET U FREE/ (4’15”)” do grupo musical “PLANET SOUL”. Lizandra se arrasta feito cobra. Alucina Felipe com seu decote. O deixa excitado, desconcertado. Num PLANO INVERTIDO, um dos mal encarados, GORILA é seu apelido, confirma com a cabeça a deixa pedida por Lizandra. O Gorila sai de cena, desaparecendo por detrás de uma cortina. Felipe dança toda a musica, sempre com Lizandra a se arrastar para cima dele. Ameaça beijá-lo e recua. Felipe gosta do jogo de insinuações. Já começa a sentir os efeitos da bebida. Num PLANO SOBRE O OMBRO de LIZANDRA vê-se o salão, cheio de prostitutas e bêbados, que observam Felipe que por sua vez esfrega os olhos. Felipe continua a dançar. Sente a sala rodar. A CÂMARA o acompanha. Outra musica do grupo musical “PLANET SOUL”, se segue. É “FEEL THE MUSIC / (5’49”)”. Lizandra dança para cima de Felipe que é arrastado aos poucos para dentro da cortina e desaparece do salão.

 

CORTA PARA

 

11        Int. / Outro Salão da Boate / Madrugada.                                                                               11

 

Felipe leva um susto ao atravessar a cortina. Antes de falar algo, Lizandra pula no seu pescoço e o beija. Felipe está tonto. É levado para dentro de um quarto no fim deste segundo salão. Existem mais dois HOMENS lá dentro. Uma mesa de jogos de azar está montada. Um JOGADOR convida Felipe a se sentar com um aceno de mão. Felipe agradece com a cabeça. Nada se falam e ele não senta. Ele olha para Lizandra que num PLANO INVERTIDO lhe sorri. Felipe está tonto. É sentado a força pelo Gorila. De medo, obedece. Mas logo desmaia. O Gorila o ergue em seus ombros e somem com ele por uma escada que ao lado da mesa de jogos, leva ao andar superior.

 

CORTA PARA

 

12        Int. / Quarto do andar de cima / Manhã.                                                                                 12

 

Felipe olha para o teto. Tenta se erguer mas parece ser puxado para baixo.

 

FELIPE

(mão na cabeça)

 
 

Aiii! Que dor de cabeça! Nossa............que lugar é esse? Minha mochila?

 

 

 

 

 

 

 

Levanta-se rapidamente e sai correndo do quarto.

 

CORTA PARA

 

13        Int. / Corredor do andar de cima / Manhã.                                                                              13

 

GORILA

Aonde pensa que vai? Volte já para o quarto. Vão vir falar com voce!

 

 

(grita)

 

 

 

Felipe se assusta com os gritos e para. Num PLANO SOBRE OS OMBROS do Gorila vemos que Felipe estanca. Apavorado olha para os lados enquanto retorna ao quarto calado. Se assusta ao ver Lizandra sentada na cama que abandonara a pouco tempo atrás e um outro HOMEM junto a ela. Parece mais velho que Felipe. Algo em torno de 30 anos. Cabelos ruivos e barba mal feita. É JOÃO DOS DEDOS, perigoso traficante e assassino. Felipe recorda de uma foto do jornal.

 

FELIPE

(nervoso e choroso)

 
 

Eu te conheço! Já esteve preso, não foi!

 

 

 

 

 

 

JOÃO DOS DEDOS

(grita)

 
 

Cala boca fedelho! Tua hora é agora! Vai embora se não mando te capar!

 

 

 

 

 

 

 

FELIPE

(transtornado)

 
 

O que eu estou fazendo aqui? Cadê minha mochila?

 

 

 

 

 

 

 

JOÃO DOS DEDOS

 
 

Não sei nada de mochila! Vá embora! Leve ele até a porta, Gorila!

 

 

 

 

 

 

Felipe olha Lizandra que se esconde. Felipe balança a cabeça, tenta entender o que houve.

 

JOÃO DOS DEDOS

(insisti)

 
 

Já te mandei embora, moleque!

 

 

 

 

 

 

Quero meu dinheiro!

 

 

FELIPE

 

 

 

JOÃO DOS DEDOS

(gargalha)

 
 

AH! AH! AH! Você jogou e perdeu! Agora o dinheiro é nosso!

 

 

 

 

 

 

FELIPE

 
 

Não! Não é verdade. Eu não me lembro de ter jogado. Eu sentei mas não joguei...

 

 

 

 

 

 

 

E Felipe leva um bofetão, seguido de muitos. A CÂMARA mostra o sangue espirrando na parede. Felipe sai do foco e aparece sendo jogado na parede onde o sangue havia espirrado. Gorila o soca ali mesmo. Num PLANO INVERTIDO o casal, sentado na cama, assiste tudo. Num PLANO SOBRE OS OMBROS de João dos dedos vê-se Gorila parando de bater e vê-se Felipe, que perdeu os sentidos depois de quase 10 minutos de surra.

 

JOÃO DOS DEDOS

 
 

Vá com o jipe dele e suma com esse corpo! Leve para no minimo, seis cidades de distância e deixe-o por lá, sem dinheiro algum. Depois volte com o jipe e o destrua na estrada ou jogue num lago. Não quero vestígios e nem polícia atrás de nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GORILA

(erguendo o corpo)

 
 

Sim, Chefe! Será feito...

 

 

 

 

 

 

Lizandra e João dos dedos se beijam. Gorila carrega Felipe para fora do quarto.

 

 

CORTA PARA

 

14        Int. / Galpão / Noite.                                                                                                                14

 

Felipe está deitado num chão coberto de jornais. Num PLANO PRÓXIMO é mostrado os olhos abertos, arregalados. Parece morto. A impressão deve ser dada. Suas costas doem e ele não se mexe.

Felipe pisca. Num PLANO INVERTIDO o teto é mostrado. É a visão que os olhos de Felipe tem. O teto é de aço mas tem uma pequena abertura. Por lá, raios da lua penetram dentro do galpão mostrando já ser outra noite. O corpo de Felipe estremece. Suas vistas se embaçam. Ele olha o teto que começa girar. Num PLANO PRÓXIMO, os olhos de Felipe giram com a cena. Ocorre um FADE OUT onde vai se dando a sensação de estarem, ele e o galpão, entrando num túnel do tempo. VOZES, ainda distantes, começam a ser ouvidas. São GRITOS ALEGRES, de crianças na maioria, pequenas. A visão do teto do galpão vai sumindo e vai entrando a visão de crianças pulando corda e se divertindo. Alguém chama uma criança, vestida igual a fotografia vista na cena nº4 (onde o Velho Luís Alfredo, jovem, está ao lado de Luís Alfredo fº e o pequeno Felipe). Na cena uma mão entra em QUADRO. Ela carrega um pirulito. A criança com boné de marinheiro azul, sorri e corre para pegar o pirulito. A mão em QUADRO. O QUADRO SE ABRE para mostrar o braço e depois a própria pessoa que segura o pirulito é ENQUADRADA. É o Velho Luís Alfredo que segura o pirulito. Está tão jovem quanto na foto do corredor. Sorri para a criança.

 

VELHO LUÍS ALFREDO

(ecoa)

 
 

Tome, Felipe! Seu pirulito!

 

 

 

 

 

Felipe agradece, sorrindo. Olha para o outro lado. ENQUADRAMOS o sorriso meigo de Luís Alfredo fº, também remoçado. Ele passa a mão na cabeça de Felipe/criança. A cena desaparece. Volta aos olhos esbugalhados de Felipe/adulto, machucado, no chão do galpão. ENQUADRAMOS, ainda, seus olhos derramarem uma lágrima. Uma única lágrima, seguida de um sussurro.

 

 

FELIPE

Deus! Onde foi que eu errei?

 

(sussurra)

 

 

CORTA PARA

 

15        Int. / Galpão / Tarde.                                                                                                                15

 

Felipe que estava dormindo, acorda. Vê o teto do galpão que mostra o sol da tarde(outro dia). Tenta se erguer. Sente dor. Cai novamente. Não consegue se locomover. Chora, agora muito.

 

FELIPE

(chorando)

 
 

Paizinho? Onde você está?

 

 

 

 

CORTA PARA

 

16        Ext. / Galpão / Noite.                                                                                                              16

 

Num QUADRO vemos os faróis de um carro que se aproxima. O QUADRO SE ABRE e mostra um caminhão bem velho se aproximando do galpão. Um homem desce do caminhão. Enquadramos botinas gastas descendo do caminhão e caminhando para dentro do galpão. O Homem é velho e se chama ZÉ LIVIO. Carrega nas mãos um caixote. ENQUADRAMOS sua face enrugada ao levar um susto. Corre para ver o corpo jogado no chão de seu galpão. Ouve a respiração do jovem muito machucado. Levanta e sai correndo do galpão.

CORTA PARA

 

17        Int. / Quarto da cabana / Tarde.                                                                                               17

 

Felipe abre os olhos. Vê o quarto simples em que se encontra. Vários PLANOS sobre o corpo de Felipe mostram seus machucados envoltos em ataduras. Tenta se levantar. Está fraco. Cai da cama. O barulho chama atenção de alguém que entra no quarto.

 

ZÉ LIVIO

(carrancudo)

 
 

Bom que tenha acordado. Está na hora de trabalhar para pagar a sua estadia.

 

 

 

 

 

 

FELIPE

(passa a mão no estômago)

 
 

Estou com fome...

 

 

 

 

Isso não me interessa. Aqui não é pensão. Vai ter que trabalhar se quiser comer. E seus primeiros trabalhos serão para pagar a conta dos remédios que comprei para você. Me deve muito. Depois pensa em comer...

 

ZÉ LIVIO

 

 

 

 

 

 

 

Onde estou? Quem é você? No que trabalharei?

 

FELIPE

 

 

 

ZÉ LIVIO

 
 

Sou Zé Livio. Está na minha Fazenda . Crio os porcos para fazer lingüiça. Ira cuidar deles.

 

 

 

 

 

 

Felipe consente com a cabeça. Está sem opção. Se levanta e sai atrás do velho, cambaleando.

 

CORTA PARA

 

18        Ext. / Chiqueiro / Tarde.                                                                                                          18

 

 

Num seqüência de PLANOS, o chiqueiro é mostrado. Como som, só o GRUNHIR dos porcos. O velho Zé Livio mostra o funcionamento. Não se ouve as explicações. Depois deixa Felipe sozinho que ainda sente dores. Olha em volta. Pega um grande balde com restos de comida. ENQUADRAMOS os olhos de Felipe que fica babando pela comida. Sente-se atraído a roubá-la e comê-la, mesmo que restos. Num PLANO INVERTIDO, vê-se o velho que o observa. Felipe enche as mãos de comida e joga aos porcos. Enche outra mão. ENQUADRAMOS sua mão. Ela está cheia de comida. Ameaça levá-la até sua própria boca mas é interrompido.

 

ZÉ LIVIO

(grita)

 
 

Se quiser comê-la, vai ter que pagar por ela! Aqui nada é gratuito, para você! Nem a comida dos porcos!

 

 

 

 

 

 

Num PLANO SOBRE OS OMBROS de Zé Livio vemos Felipe que se assusta e nada fala. Joga toda a comida para os porcos até que o velho, satisfeito com a atitude de Felipe, vai embora. Felipe põe o balde no chão. Olha aquela comida estragada e chora. É ainda uma criança.

 

FELIPE

Meu pai, que nunca negou um prato de comida a qualquer empregado, a qualquer transeunte que passasse pela Fazenda, que nunca negara nada, nem aos porcos, deve estar a essa hora em frente a uma mesa farta. Mesa cheia de comida. Comida que eu negava comer para magoá-lo. Ahhh! Pai! Não sou merecedor de ser seu filho. Nem de Deus, mereço perdão. Sou um ser abominável. Não mereço ser filho de meu pai............ e nem de Deus!

 

(aos prantos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E volta a chorar. Como fundo musical, só o GRUNHIR dos porcos e os PRANTOS de Felipe.

 

FELIPE

(desacorçoado)

 
 

Vou fugir daqui! Vou sim. Vou até meu pai.

Vou andar muito para lá, chegar. Vou dizer que não mereço seu perdão, nem mereço ser seu filho, mas que tenho fome. É! Vou sim...

 

 

 

 

 

 

 

 

CORTA PARA

 

19        Ext. / Porteira Da Fazenda / Manhã.                                                                                        19

 

Num pequeno QUADRO vemos um homem caminhando. Uma poeira se forma por detrás dele. Vem do carro que lhe trouxe e agora vai embora. Ele manca. Passa pela porteira aberta. O QUADRO SE ABRE para visualizarmos melhor o homem que se arrasta, lentamente. A imagem ainda não é nítida.

Um LAVRADOR da Fazenda está capinando o mato. ENQUADRAMOS seus olhos que se assustam ao ver a figura que chega. Abre a boca para falar mas não consegue. Larga a enxada e sai correndo dali. Depois vemos o Velho Luís Alfredo, que não acredita no que vê, parado na porta da casa. ENQUADRAMOS sua felicidade. Sorriso aberto e largo. Abre os braços para Felipe que corre para abraçá-lo. Choram muito, os dois. Ficam vários minutos a se abraçarem.

 

FELIPE

Pai, não sou merecedor de seu perdão, nem de ser seu filho.......mas estou arrependido.

 

(chorando muito)

 

VELHO LUÍS ALFREDO

Quieto, Felipe! Nada mais importa ao não ser meu filho, que estava dado como morto, e que voltou! __ Maria, mande matar o melhor boi e dê de comer ao meu filho recém nascido! E diga a todos que hoje é festa. Parem de trabalhar! __ Ohhh! Luís Alfredo fº se aproxime. Veja quem voltou...

 

(abraçando o filho)

 

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS ALFREDO Fº

Preciso falar-lhe..........em particular.

 

( sem encarar Felipe)

 

 

VELHO LUÍS ALFREDO

Fica alegre, meu filho. Teu irmão era morto e ressuscitou graças ao bom Deus.

 

(arrasta Luís Alfredo fº para longe)

 

 

 

Ele não era morto, coisíssima nenhuma. É um irresponsável que gastou toda a sua fortuna com prostitutas, bebidas e jogos......e ainda o recebe de braços abertos? Te dei minha vida e a força de meu trabalho, nesta Fazenda e nada ganhei até hoje, nem uma festa com teus bois gordos em forma de churrasco. Acha isso justo, comigo?

 

LUÍS ALFREDO Fº

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VELHO LUÍS ALFREDO

 
 

Não sabia de tua magoa , meu filho querido. Deus! Acho que errei com vocês dois. __ Filho querido, para você , nada te dei por tudo já tinha. Não vê? Isso tudo é teu. Para teu irmão, qual nada mais terá além de meu carinho, dou isso......o carinho que ele nunca quis ter. E digo mais....hoje sei que a teu irmão nada interessa além de nosso amor. Vai amá-lo outra vez? Tentará ao menos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oh! Pai! Nunca deixei de amar Felipe. Ele desde que cresceu, deixou de querer nosso amor. Vou provar-lhe, então, isso meu pai. Acho mesmo que Felipe mereceu o que teve. Hoje é crescido. Depois de se perder pelo caminho, Felipe o achou por si só. Vamos, Pai, recebê-lo de volta. E chega de magoas. Está na hora de voltar a sermos uma família!

 

LUÍS ALFREDO Fº

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM