Livros Adultos e Infanto-juvenis

Ficção Científica, Ficção Fantástica, Terror, Suspense, Policial

 

 

 

Roteiro canal USA (atual AXN) - 1997 - "A Coisa"

“A Coisa!”

 

 

1          Biblioteca da faculdade/int./manhã.                                                                        1

 

A mão que escreve a carta, treme. O HOMEM VELHO aparece em 1º PLANO. O QUADRO abre e gira mostrando uma sala de estudos, antiga, porém bela.  É uma Faculdade de medicina; aparece agora nas flâmulas, penduradas, por detrás do corpo que se debruça sobre a mesa.

 

HOMEM VELHO

(off)

                        ... acredito que seja o melhor. Nada mais posso fazer para salvá-los.

                        Adeus, querida CIBELLE!

 

O homem velho lacra a carta com cera quente; pega a arma ao lado dele; engatilha próximo ao ouvido e atira. Cai ao chão com os olhos abertos.

 

CORTA PARA:

 

2          Corredor da faculdade/int./manhã.                                                                          2

 

O SOM METÁLICO se propaga. As salas de aulas abrem suas portas. CABEÇAS aparecem nos corredores. Muitos se olham e correm atrás do som metálico. O silencio ainda permanece. De fundo um SOM NOSTÁLGICO(do tipo/vozes que choram).

 

CORTA PARA:

 

3          Biblioteca da faculdade/int./manhã.                                                                        3

 

ENQUADRAMOS a porta que se abre de supetão. Uma MULHER IDOSA aparece; entra, vê o corpo caído e grita. Só o GRITO que se espalha por todos os corredores. A CÂMARA sai para mostrar NUMA SEQÜÊNCIA, toda a propagação do grito pela faculdade.

 

CORTA PARA:

 

4          Diretoria da faculdade/int./tarde.                                                                             4

 

Uma pancada se faz na porta da DIRETORA CIBELLE. Agora mostra ser a mesma mulher que achou o corpo. É uma Senhora por volta dos cinqüenta anos. Cabelos sempre presos, saias compridas, ar respeitador, rosto carrancudo. UM PLANO PRÓXIMO nos olhos inchados.

A Diretora os limpa com um lenço.

 

DELEGADO

(olha ao redor)

                        Com licença.....sou o DELEGADO FERNANDO... posso entrar? Me                              disseram que a Senhora foi a primeira pessoa a encontrar o Dr. Astor,                             morto. Poderia me explicar o que viu exatamente?

DIRETORA CIBELLE

                        Não tenho nada a completar além do que disse ao seu policial.

                        O Dr. Astor se suicidou.

 

DELEGADO

                        Mas ele não deixou nenhuma carta? Não vinha há algum tempo

                        mostrando certa instabilidade emocional?

 

DIRETORA CIBELLE

(indignada)

                        O Dr. Astor era um homem integro. Não acredito que estivesse

                        desestabilizado.

 

DELEGADO

                        Não quer que eu acredite que ele estava emocionalmente perfeito.

 

DIRETORA CIBELLE

(se levantando da cadeira)

                        A faculdade está em recesso. Tenho muito serviço. Pode me dar licença?

 

DELEGADO

(saindo)

                        Está bem. Por agora é só. Voltaremos a conversar.

 

CORTA PARA:

 

5          Jardins da faculdade/ext./tarde.                                                                               5

 

O Delegado se encontra com seu auxiliar. Ele é o POLICIAL CARLOS; moço simples e acanhado. O Delegado parece por fé nele. UM PLANO PRÓXIMO no rosto do policial Carlos.

 

POLICIAL CARLOS

(fechando o casaco)

                        Então, delega, conseguiu algo novo? A fera é dura na queda?

 

DELEGADO

                        Não acredito que um homem resolva se suicidar de uma

                        hora para outra e nem sequer deixe uma pista.

 

POLICIAL CARLOS

(caminha até o carro)

                        Desconfia dela?

 

 

 

DELEGADO

                        De uma certa forma, sim. Mas como cúmplice de algo. Falando nisso,

                        o que descobriu sobre o tal Dr. Astor?

 

POLICIAL CARLOS

                        Que era uma respeitado psiquiatra. Dono de idéias revolucionarias e

                        que gostava de deixar seus “loucos” soltos pela ala psiquiátrica. Nada

                        mais. Ahhh! O cara ia se aposentar mas sentia pressão da Cibele para

                        acabar de construir a ala experimental. Parecia que ele tinha muita

                        influencia na mesa administrativa da faculdade e alguns alunos disseram

                        no depoimento que a Cibele tinha medo de que a obra, parasse.

 

DELEGADO

                        Que obra é essa?

 

POLICIAL CARLOS

(completou ao partirem)

                        Não sei. Vamos investigar!

 

CORTA PARA:

 

6          Laboratório da ala psiquiátrica/int./manhã.                                                              6

 

Dois ALUNOS trabalham no laboratório sob o comando de um terceiro; o Dr. WALTER, Clínico Chefe. EM FOCO, alguns micróbios numa lamina, vista pelo microscópio. O auxiliar Carlos conversa com o Dr. Walter.

 

DR. WALTER

                        Não sabia, não. Estranho! De que obra se refere?

 

POLICIAL CARLOS

(olhando para os alunos)

                        Alguns alunos me disseram que a tal Cibelle estava nervosa pela

                        aposentadoria do Dr. morto. Parecia que ele não concordava com certas

                        idéias e não queria terminar a obra do laboratório.

 

Um dos alunos levanta a cabeça. UM PLANO SEGUIDO mostra sua ação e reação. Ele volta a trabalhar. O Dr. Walter não parece abalado. Trabalha normalmente. Mexe em alguns vidros.

OUTRO PLANO segue as vistas do policial e todo o laboratório é minuciosamente, mostrado.

ÊNFASE numa porta, sempre trancada.

 

DR. WALTER

(faz menções com as mãos)

                        Continuo achando tudo muito estranho. Pode ver que não estamos

                        em obra. A que obra se referia? Construção? Reforma?

POLICIAL CARLOS

(cínico)

                        Acha que se soubéssemos perderíamos tempo, em vir até aqui?

 

DR. WALTER

(irritado)

                        Não, acho que não. Mas se souber de algo, comunico.

 

POLICIAL CARLOS

                        Ok! Aguardaremos então.

 

O policial sai. Alguns vidros em cima da mesa de pedra, próximos aos alunos se mexem. Parecem chacoalhar. ENQUADRAMOS os olhos do Dr. Walter. Parecem doentios. NUM ANGULO INVERTIDO os alunos seguram os vidros que “se acalmam”.

 

CORTA PARA:

 

7          Delegacia/int./noite.                                                                                                 7

 

O Delegado olha algumas fotos. ENQUADRAMOS as fotos do morto. Anotações nas fotos são vistas como contornos coloridos. O Delegado Fernando escreve algo num papel amassado. O Delegado tem aspecto desajeitado e bagunçado. Suas roupas são largas e usadas. Corpo gordo e atarrancado. A sala dele se reflete em sua personalidade, está toda bagunçada. UM ÂNGULO INVERTIDO mostra o policial Carlos que chega e entra enquanto o Delegado escreve. O policial Carlos se aproxima. Veste roupas simples mas se esforça para estar bem vestido. Penteia o cabelo com gel e esmero.

 

POLICIAL CARLOS

                        Encontrou algo diferente?

 

DELEGADO

                        O Médico legista diz que a fisionomia do morto é dura.

                        Parecia estar tenso, nervoso mesmo.

 

POLICIAL CARLOS

(rindo)

                        Mas ia se matar. Seria de se admirar se não estivesse nervoso.

 

DELEGADO

                        Não! Estava com medo de alguém. Se matou ou foi morto... por medo.

 

POLICIAL CARLOS

                        Eu toquei no assunto das obras. O Dr. Walter não parecia saber de nada mas

                        um dos seus alunos se assustou. Sabe, delega, pode parecer ideai fixa mas

                        o problema não está nos “loucos” do Dr. Astor, está naquele laboratório.

DELEGADO

                        O que você acha que fazem lá?

 

POLICIAL CARLOS

                        Eu dei uma olhada muito rápida nos arquivos do psiquiatra, e não

                        achei nada que pudesse estar fora do normal.

 

DELEGADO

(franzindo a testa)

                        Então o que quer dizer?

 

POLICIAL CARLOS

                        Que por isso mesmo algo está errado. Se tinham medo de tanta coisa e que a                   obra não fosse para frente., porque haveria arquivos de obras, lá?

 

DELEGADO

                        Estranho mesmo. Vou mandar o POLICIAL EDUARDO te acompanhar.

                        Quero uma busca completa naquela faculdade. Vou arranjar uma autorização                   de busca para a Cibelle não interferir.

 

POLICIAL CARLOS

(saindo e fechando a porta)

                        Está bem, delega.

 

DELEGADO

(off)

                        Muito estranho, mesmo!

 

CORTA PARA:

 

8          Jardins da faculdade/ext./madrugada.                                                                                 8

 

NUMA SEQÜÊNCIA, o POLICIAL EDUARDO e o policial Carlos estacionam um pouco distantes da entrada da faculdade. O policial Eduardo parece ainda mais jovem que Carlos. Tem espinhas no rosto e usa óculos de aro fino. é muito magro e alto. Os dois vão a pé até perto do portão que tem cadeado. Eles forçam e entram sorrateiramente. Se aproximam da ala psiquiátrica e dos laboratórios, que ficam longe das salas de aula. A faculdade está um tanto fantasmagórica. Ouve-se o SOM DE CORUJAS.

 

 

 

 

 

 

CORTA PARA:

 

9          Ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                                              9

 

Os policias se aproximam de um longo corredor. Atravessam-no. Param em frente a uma porta. NUM ANGULO INVERTIDO lê-se LABORATÓRIOS. ENQUADRAMOS o policial Eduardo tremendo muito. É muito jovem e medroso. Usa sempre calças largas. Aparenta desestabilizado emocionalmente.

 

POLICIAL EDUARDO

(olhando em volta)

                        A gente deveria ter esperado o Delegado conseguir o mandato...

 

POLICIAL CARLOS

(furioso)

                        E esperar eles destruírem tudo? Acha que vão aceitar que

                        olhemos seus documentos de livre acordo? É claro que vão

                        ter tempo de esconder tudo.

 

POLICIAL EDUARDO

                        Mas o Delegado vai nos matar se mexermos em algo sem autorização.

 

POLICIAL CARLOS

(entrando no laboratório)

                        Você é mesmo um cagão, não? Vamos só dar uma olhada e conseguir

                        algumas provas. Eu sei que este laboratório tem algo de estranho.

                        Vê se não vai quebrar nada, nem fazer barulho. Põe as luvas e me observa.

 

O policial Carlos concorda com a cabeça. NUM PLANO SOBRE OS OMBROS do policial Carlos que olha ao redor. Nada vê de anormal além de muitos tubos. ENQUADRAMOS uma porta. Estará sempre fechada. Aparece no QUADRO, a mão do policial Carlos ao tentar abrir a porta. NUM PLANO PRÓXIMO mostra a maçaneta sem chaves penduradas. Ele força mas não abre. Ele franze o cenho. Um ESTALIDO é ouvido atrás deles. Os dois se viram. A CÂMARA gira 360º. Mostra o laboratório todo e volta até os policiais. INSERT de alguns tubos encima da mesa, alguns vidros numa estante e dois tubos coloridos de onde não se enxerga o conteúdo. PLANO PRÓXIMO nos olhos do policial Eduardo, que recaem sobre os tubos. ANGULO INVERTIDO nos dois frascos em especial.. Parecem mudar de cor. Num 1º PLANO os vidros e num 2º PLANO os olhos do policial que se aproxima. Numa INVERSÃO DE PLANOS, fica em evidencia os olhos aturdidos do policial Carlos. Derepente Carlos é absorvido por uma névoa que escapa dos vidros e grita. NUMA SEQÜÊNCIA, o policial Eduardo se assusta, vai para trás, derruba uma cadeira, o sinal de infravermelho atrás dele dispara, a faculdade entra em alerta. Os dois correm para fora do laboratório que ainda se encontra tomado pela névoa de cores, agora, néon.

 

CORTA PARA:

 

10        Corredor da ala psiquiátrica/ int./madrugada.                                                          10

 

NUMA SEQÜÊNCIA, do final do corredor por onde escapam, se vê alguns HOMENS que correm atrás dos invasores.

 

 

CORTA PARA:

 

11        Jardins da faculdade/ ext./madrugada                                                                                 11

 

Os dois policiais correm até o portão, chegam no carro, entram e partem.

Não são pegos. Alguns homens correm até o portão. Vê o Dr. Walter, que identifica o carro do policial. É o mesmo que ele viu um dia antes, ao visitá-lo no laboratório.

 

CORTA PARA:

 

12        Diretoria da faculdade/int./manhã                                                                           12

 

Papeis são jogados para o alto. Uma desordem se vê na sala de Cibelle. Há duas pessoas gritando na sala. Ainda não é mostrado. A cena mostra muito descontrole emocional.

 

DR. WALTER

(derrubando todas as gavetas ao chão)

                        Eu disse para não guardar nada que pudesse nos comprometer.

 

CIBELLE

(chorando)

                        Mas eu já disse que não tenho nada. Eus seria a ultima pessoa a fazer isso.

                        Astor era negligente, não eu.

 

DR. WALTER

                        O velho estava apaixonado por você. Faria qualquer coisa por você.

 

CIBELLE

                        Eu fiz a minha parte. E venho fazendo. A organização não pode

                        desconfiar de mim.

 

DR. WALTER

(esbofeteia-a)

                        Cale-se! E pare de chorar. Falei que não poderíamos confiar numa velha.

 

 

CIBELLE

                        Não! Por favor! Eu posso ser muito útil ainda...

 

DR. WALTER

(saindo e batendo a porta)

                        Não sei! Levarei na próxima reunião, meu desgosto por você.

 

 

CORTA PARA:

 

13        Delegacia/int./manhã                                                                                                13

 

Os dois policias estão na frente da mesa do Delegado Fernando que por sua vez está ao telefone. Os dois policias estão quietos e tem as mãos trançadas para trás. O Delegado desliga.

 

DELEGADO

(grita descontrolado)

                        Eu falei com as paredes? Sabem quem era ao telefone? Meu superior!

                        Que levou uma bronca do superior dele! Dá para imaginar o que

                        ele queria comigo?

 

POLICIAL EDUARDO

(apavorado)

                        Eu falei! Eu falei! Não podíamos ir sem ordem......eu falei...

 

POLICIAL CARLOS

                        Ahhh! Cala a boca, idiota!

 

DELEGADO

                        Não! Idiota foi você! Se deixou ver pelo Dr. Walter que reclamou para o                         “bispo” sobre a invasão. Eu mandei invadir? Mandei?

 

POLICIAL CARLOS

                        Não, delega. Mas eles iam esconder tudo antes de podermos ir lá ...

 

DELEGADO

                        E você achou alguma coisa, pelo menos?

 

POLICIAL CARLOS

                        Não Senhor. Nada de nada.

 

DELEGADO

                        Como nada? Não desconfiava dos laboratórios da ala psiquiátrica?

 

POLICIAL CARLOS

                        Sim. Mas não achei provas reais. A não ser uma porta sempre trancada.

 

DELEGADO

                        Reais? Do que está falando? Acha que posso prender alguém porque

                        mantém uma porta trancada?

 

POLICIAL CARLOS

                        Não sabemos o que há lá?

 

DELEGADO

                        Podemos perguntar. Já fizemos isso?

 

POLICIAL CARLOS

                        Não, Senhor! Mas tenho uma idéia vaga.

                        Eles estão fazendo experiências. É isso. Aposto nisso.

                        Mas não pergunte sobre o que. Só sei que o culpado é o Dr. Walter.

 

O telefone toca. ENQUADRAMOS o aparelho. O Delegado suspira. Atende. Se assusta. PLANOS INVERTIDOS sobre os dois policiais que trocam olhares.

 

DELEGADO

(grita)

                        O que? Ahhh! Está bem, está bem. O Doutor manda. Vou imediatamente.

 

POLICIAL CARLOS

                        O idiota voltou a reclamar? Prende ele delega. O cara vai se aproveitar...

 

DELEGADO

(sério)

                        Encontraram o corpo do Dr. Walter caído no chão do quarto. Teve uma parada                cardíaca............fulminante.

 

A CÂMARA fecha num QUADRO, o susto dos dois policiais.

 

CORTA PARA:

 

14        Ala psiquiátrica/int./tarde                                                                                         14

 

Há uma névoa, gelada, dentro de um dos laboratórios. Há um Frezzer aberto. Não é o mesmo laboratório visitado na primeira vez, e nem na invasão. Eles estranham quando são levado até lá por Cibelle.

 

CIBELLE

                        Por favor, entrem. Queiram se sentar nessa cadeiras.

Os dois policias, Carlos e Eduardo, e o Delegado Fernando olham para trás. NUM ANGULO INVERTIDO vêem-se duas cadeiras preparadas. Caminham até ela e se sentam. NUM OUTRO ANGULO INVERTIDO a Diretora também senta.

 

CIBELLE

(consternada e chorosa)

                        É realmente muito triste esse episódio. O Dr. Walter era um homem

                        muito jovem. Estamos perdendo nossos grandes homens.

 

POLICIAL CARLOS

(corta sua fala)

                        Por que nos chamou afinal?

 

DELEGADO

                        Calma, Carlos. Estamos aqui porque o meu superior pediu.

 

CIBELLE

                        É claro! Vocês estavam sendo importunados pelo Dr. Walter. Eu fiquei sabendo             que ele achou que era um dos seus homens que aqui estiveram, mas sabemos,                  todos , que existem muitos ladrões na região.

                        E então resolvi fazer uma coisa que achei ser meu dever. Tirei a queixa crime.

 

A CÂMARA mostra a reação rápida do Delegado ao agarrar o braço de Carlos que ia se levantar, que ia falar. NUM PLANO PRÓXIMO do braço vê-se que recua. O policial Eduardo é um idiota. Passa batido para ele.

 

DELEGADO

                        Então é só isso?

 

CIBELLE

                        Não! Vou leva-los a capela. estamos velando o corpo

                        do nosso Médico querido.

 

POLICIAL EDUARDO

(esticou o pesco)

                        O segundo, né?

 

CIBELLE

(se defende)

                        Não compreendi o cinismo, policial.

 

POLICIAL CARLOS

                        O Eduardo é uma pessoa muito pura de coração.

                        Está assustado e impressionados com tantas mortes, tão repentinas.

 

CIBELLE

                        Não posso compreender a sua cisma. Não, mesmo.

 

DELEGADO

                        Ahhh! desculpe pelo meu policial. Ele é muito inexperiente e jovem.

 

CIBELLE

                        Muito jovem, mesmo. Deveria se cuidar............mais.

 

A CÂMARA fecha um PLANO nos olhos desconfiados de Carlos.

Os quatro se vão para fora do laboratório. O velório não é mostrado.

 

CORTA PARA:

 

15        Jardins da faculdade/ext./tarde.                                                                               15

 

O delegado sai com seus dois policias. se aproxima do carro e antes de entrar fala como que para si mesmo.

 

DELEGADO

(suspira)

                        Sabe, Carlos. Admiro sua coragem. Essa de você entrar sozinho foi demais.                     Admiro porém nada posso apoiar. Entendeu?

 

ENQUADRAMOS o susto do policial. Ele entendeu que o Delegado pediu para que invadisse os laboratórios, novamente.

 

POLICIAL CARLOS

(entra no carro)

                        Nem vai me defender?

 

DELEGADO

(entra no carro, também)

                        Não! Não mesmo!

 

CORTA PARA:

 

16        Ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                                              16

 

O policial Carlos invade os laboratórios. Agora presta mais atenção aos infravermelhos. O laboratório que entrara naquela noite está lacrado. Ele tenta outras portas. Abre-as e as fecha sem mostrar, conteúdos. Volta a olhar a porta que é mostrada sobre VÁRIOS ÂNGULOS. O policial Carlos força a porta do laboratório principal, que se rompe com a força da ferramenta.

 

FUSÃO PARA:

 

17        Corredor da ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                                       17

 

Vê-se pés que caminham. Parecem pequenos e de mulher. Eles se dirigem para algum lugar.

 

FUSÃO PARA:

 

18        Laboratório da ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                       18

 

Carlos engole a seco, o que vê. Sua fisionomia se traduz em pânico. O laboratório está todo colorido. VÁRIOS PLANOS mostram o laboratório tomado por purpurina (ou algo parecido) colorida. Carlos passa a mão pela mesa de pedra; o pó gruda na mão; arde. Ele grita pelo ardor. Tenta limpar na roupa. A roupa coroe. Suas mãos ficam machucadas. Ele porém não entra em pânico. NUM ÂNGULO INVERTIDO a porta é aberta sem que ele perceba. Uma mão passa a chave e se tranca dentro com ele.

POLICIAL CARLOS

(se vira rapidamente)

                        Quem esta aí?

 

Não há respostas e CÂMARA gira para mostrar que não há ninguém. INSERT em alguns frascos. Uns vinte ou mais. Ele observa junto. Num PLANO SOBRE OS OMBROS, uma pipeta, um frasco muito comprido, atrás dele, muda de cor, constantemente.

Uma névoa sai de dentro deste frasco. Primeiro uma azul. O vidro parece dilatar. Uma bolha se forma na textura do vidro. INSERT de EFEITOS ESPECIAIS. O vidro cresce. Toma o formato de um rosto. Carlos se vira. Os olhos, esbugalham-se. Perde a voz. O rosto toma forma. Se delineia um nariz, dois olhos, boca perfeita. O outro frasco também reage. Agora e uma névoa rosa. Faz a bolha que se transforma em rosto. Carlos deixa cair a lanterna que carrega no chão. Corre para a porta. Cibelle o breca.

 

CIBELLE

(calmamente)

                        Aonde pensa que vai?

 

O policial estanca.

 

POLICIAL CARLOS

(arca as sobrancelhas)

                        Você? Então era você esse tempo todo? Por que matou Walter?

 

CIBELLE

                        Era um impecilho. Queria me destituir da mesa de conversação.

                        Meus superiores acreditam nas minhas idéias, acreditam no meu

                        valor e minha competência. Astor não queria assumir riscos...

NUM PLANO PRÓXIMO vê-se uma gota de suor que cai do rosto do policial Carlos.

 

CIBELLE

(parece doentia)

                        Não queria mais assinar meus projetos, me ajudar........tinha que ser

                        eliminado.

(se esticando toda, ainda doentia)

                        Se matou antes disso, o idiota.

 

NUM ANGULO INVERTIDO vê-se a “coisa” que se aproxima. Parece um rosto colado a uma malha elástica. Num quadro se mostra a outra coisa tomando forma, também. Carlos olha para trás.

 

CIBELLE

                        Achou que ia escapar? Que ia contar para todo mundo sobre as

                        minhas crias? sabe, idiota, você vai morrer...

 

POLICIAL CARLOS

(grita)

                        Socorro!

CIBELLE

(dá ordem)

                        Peguem-no!

 

O Policial Carlos corre para o lado oposto ao que está Cibelle. Escorrega. Levanta e tenta a porta que sempre está sempre trancada, desde o inicio. Ela, enfim, cede pela pressão e abre.

 

CORTA PARA:

 

19        Depósito da ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                                       19

 

A porta que é aberta num rompante e vai dar num grande depósito. INSERT dos EFEITOS ESPECIAIS. As “coisas” o seguem. Parecem absorver tudo o que passam se transformando nelas. Caminham pelo chão o erguendo. Tomando a foram da cadeira que agora vive. Depois é uma mesa que é invadida pela segunda “coisa”. A cadeira e a mesa tomam vida e ficam eretas como um humano e vão atrás de Carlos que corre pelo extenso galpão.

 

POLICIAL CARLOS

(desesperado)

                        Socorro!

 

NUMA SEQÜÊNCIA DE PLANOS, a CÂMARA o segue por cima, também. Carlos chega a uma porta no fim do galpão. ENQUADRAMOS o policial que tenta arromba-la. NUMA INVERSÃO DE PLANOS vê-se que Cibelle toma as sua lateral e chega junto a uma parede sem saída.

CIBELLE

                        Você vai morrer... e ninguém nunca saberá sobre meu clones, meus

                        filhinhos queridos.

(grita)

                        O futuro da humanidade está a salvo!!!

 

POLICIAL CARLOS

(chacoalha a maçaneta)

                        Socorro! Alguém me ajude! Eu vou morrer!

 

 

CORTA PARA:

 

20        Jardins da faculdade/ext./madrugada.                                                                                 20

 

Olhares atentos denunciam o Delegado do lado de fora da faculdade. Ele ouve os GRITOS DO POLICIAL . Mas nada pode fazer. O mandou lá sem ajuda.

 

 

DELEGADO

(divaga)

                        Agora sei que há algo errado, mesmo. Mas como destrui-los?

                        Muita gente poderosa.......eu sei. Não posso perder meu emprego.

(entra no carro e parte)

                        Adeus! Bom menino!

 

CORTA PARA:

 

21        Depósito da ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                                       21

 

A cadeira para. A mesa para, também. Parecem derreter e voltar ao normal. Dá-se a sensação que a “coisa” deixou a textura da cadeira e da mesa e agora absorve o piso. O piso, quadriculado, parece, agora, ganhar vida. Se erguem para formar duas figuras humanas. Se olham NUM ANGULO INVERTIDO. Parecem sorrir.

Carlos os vê numa SEQÜÊNCIA DE PLANOS. Entra em pânico. A rosa, rapidamente forma uma mão, que agarra o pescoço de Carlos e o estrangula. Ele se debate e cai roxo no chão, sem ar. Teve uma parada respiratória. As “coisas” se desmancham novamente.

Tomam a vida no piso e saem do depósito.

 

 

 

 

 

CORTA PARA:

 

22        Laboratório da ala psiquiátrica/int./madrugada.                                                       22

 

As duas “coisas” voltam para dentro do laboratório. Se transformam nos azulejos que recobrem a mesa do laboratório. Se desmancham na névoa colorida. Primeiramente a rosa toma seu lugar no seu frasco. Depois a azul toma seu lugar no seu frasco. NUM ANGULO INVERTIDO vê-se Cibelle satisfeita com seus clones. Os olhos da “coisa” ainda podem ser vistos na espécie de  malha elástica que forma a textura do vidro. Os olhos parecerem fechar e adormecer. Sentimento de missão cumprida.

 

CORTA PARA:

 

23        Jardins da faculdade/ext./madrugada.                                                                                 23

 

NUMA SEQÜÊNCIA DE PLANOS, a faculdade é mostrada, mergulhada num SILENCIO mortal.

 

 

 

Fim